quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

Carta a uma amiga

Carta a uma amiga.

Pois é, cara amiga, vi-me na necessidade de te escrever esta carta para que não penses que o que me move é, de algum modo, antagonismo com a tua pessoa.
Não passo, de momento, pelo melhor momento da minha vida.
Já tive bons momentos, mas por agora a coisa, como se costuma dizer, está preta.
Cumprir-se-á no próximo dia 15 de Fevereiro o terceiro aniversário da cessação da minha actividade profissional e, consequentemente, do meu último rendimento.
Tenho 52 anos e não consigo arranjar trabalho. Não que não tenha tentado. Habituado ao ambiente “sossegado” do ar condicionada do escritório e ao “estatuto” de chefe aceito sem problemas qualquer tarefa, mas não estou propriamente talhado para andar a pé, no pino do Verão, a bater de porta em porta a vender telefones, mas fi-lo, até perceber que não havia resultados.
Como tenho vivido? Mal. Muito mal. Em todos os termos.
Já tive dias em que passei fome. Dias em que a única coisa que me passou pela garganta foi um pouco de arroz cozido em água e sal. (A pensar nesses dias, cara amiga, sou o “Xao Xen Daí”.)
Primeiro comi a indemnização, depois as poupanças e agora ando a comer do carro que tive de vender.
Também quem um dia jurou que era para a vida e para a morte, na saúde e na doença, nos bons e nos maus momentos, entendeu que não estava para suportar um tipo como eu, que não consegue arranjar trabalho e pediu ao doutor juiz da comarca para decretar o divórcio. O que ele fez. Espero que a senhora seja mais feliz assim, Não lhe desejo nada de mal, apenas me recuso a falar com ela. Contudo, todos os dias os meus pensamentos voam até ela e só eu sei o mal que me faz.

Os meus dias são assim, sem trabalho, inerte, a apodrecer por este canto, envergonhado com a miséria que me bateu à porta, sem vontade de viver e sem qualquer ideia para o futuro.

Decidi que não gasto mais do que dez euros mensais com esta coisa da internet e isso para pouco mais dá que para ver os emails e para uma pequena pesquisa nos sites de emprego. Eis a razão para a minha ausência.

Queres discutir as castanhas de ovos? Fica para a próxima.


Aceita um beijo.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Obrigado,

De repente, e sem eu o esperar, o "Dias de Miséria" teve um pouquito mais de leitores.
Obrigado ao Luís Ribeiro, do Tomar, a Cidade e ao desconhecido autor do Nabantia pela referência, que é contraditoriamente agradável e desagradável quanto vista do ponto de vista da vergonha em expor assim os meus problemas.
Obrigado pelas palavras gentis que escreveram. São, de algum modo, bálsamo para os poucos dias em que cá andarei.

Esta vida é-me, a cada dia que passa, mais pesada e creio que só na morte encontrarei um pouco de paz e de sossego.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Agradeço

Ao Luis Ribeiro.

Novo inventário.

Uns dois/três quilos de batata, 1 tomate, 1/2 pimento, 1 lata de atum, 1/2 caixa de manteiga. Azeite, vinagre e um resto de sal.

Mentia. Tenho mais um pacotito de massa cotovelinhos.

Não tenho cá vindo

E a razão é simples. A esperança já não existe.
A pressão foi ligeiramente aliviada com algum, muito pouco, dinheirito que ganhei nuns biscates e que deu para ir comendo qualquer coisa, mas entretanto houve dias em que em todo o dia comi apenas um marmelo que "roubei" à borda da estrada... e dias houve que nem isso. Dizem que faz bem. Purifica o corpo e torna-nos mais elegantes.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Inventário

Fui fazer o inventário das existências de mantimentos.

100 grs de farinha de trigo, 100 grs de farinha maizena, 1,1 kg de arroz, 1/2 frasco de vinagre, 2 kg de sal, uns quantos restos de especiarias.

Sobreviver

Ontem, anteontem e no dia antes, e no dia antes, e no dia antes, e no dia antes, e no dia antes, sobrevivi com uma tijela de arroz cozido em água e sal. No dia antes misturei ao arroz um tomate migadinho, como se para salada, temperadinho com azeite e vinagre. Que bem me soube. Ainda tenho um pouco de vinagre mas acabou o azeite. E não há dinheiro para comprar o tomate.
A ementa de hoje? Uma tijela de arroz apenas cozido em água e sal.

Linha Editorial

Tudo o que aqui se escrever corresponderá à verdade. Não haverá omissão ou alteração. Apenas o nome, por questões de vergonha, será alterado para este mal amanhado Xao Xen Dai.

Porquê?

Tenho vergonha. Tenho vergonha de ter chegado aqui. Já tive vida boa e ganhei bom dinheiro. Desempregado há mais de dois anos e meio restam-me 48 cêntimos na carteira e nada na conta bancária. Recuso-me a aceitar a única ajuda do Estado, para a qual descontei anos a fio, porque ela se materializa apenas num indigno Rendimento Mínimo. Tenho mais expectativas que essa, a de ir sobrevivendo na miséria.
Deixei de poder pagar as minhas contas. Sim que eu tinha contas a pagar. Vivo agora da cridade de familiares e ex-familiares, o que muito me custa. Tenho Internet e tudo, comentarão. Sim mas paga por um filho que faz questão de manter um endereço de e-mail. Tenho água e electricidade, paga pela ex-mulher. Não tenho o resto. Nada. Absolutamente nada.